segunda-feira, 6 de abril de 2015

um tanto quanto quase imbecil

Eu sou, eu li, eu sei, eu fui (essa era a sua torre); 

li mais, vi mais, vi o que você não viu (essa era a sua torre); 

palavras, as uso para separar sentidos que só eu compreendo - e apenas alguns eleitos (essa era a sua torre); 

deixo escapar uns instantes de afeto, mas logo me arrependo, pois não posso me aproximar (essa era sua torre); 

posso até ser um gênio não descoberto, mas me escondo na sombra de um idiota (essa era a sua torre); 

me vejo como um homem odiável e não posso facilitar as coisas pra mim, nem pra ninguém (essa era a sua torre em chamas).

quinta-feira, 2 de abril de 2015

laddy’s

A quenga víctrea biscate quilométrica de cuequinha às avessas: putz, ela chegou. No bar, o som shhhhhhhhh das batatas chips encheu a minha alma de gordura saturada. Eu suava gotículas pela testa, perolicas de ouro salgado. Blergh!, disse a madama ao meu lado durante a ânsia do colega de pé enfiado até a canela na lixeira de plástico vermelho-carne-ketchup-falso, algo não tinha caído bem pra ele: ou o bolovo ou o batom da madama sabor tutti-frutti mal passado ou o filé a cavalo - a caipirinha amiga é que não. É como a cereja do bolo, a ameixa do manjar, a azeitona da empada: são sempre elas as culpadas pelos engulhos estomacais. 


Primeiro, madama tomou seu caracu com cola, daí pediu o gin tônica separado em dois copos pra não ter roubalheira do garçom. Conferiu as doses e partiu giratória retocar o bico no toallet escrito laddy’s do outro lado do balcão. Tentou entrar, a porta trancada pela quenga víctrea biscate quilométrica de cuequinha enroscada na meia arrastão escarlate: tem geeeeentshhhhhh.


segunda-feira, 23 de março de 2015

Projeto "Questions For a Live Writing" no ar!

Em um período de pouco mais de um mês de residência artística, cerca de 20 pessoas que circulam por Londres todos os dias participaram do meu projeto "Questions For a Live Writing", respondendo a perguntas como "qual é o som da sua alma?". 

Com as respostas em mãos e alguns outros tipos de inspiração, desenvolvi uma série de textos ficcionais, agora publicados em português e inglês na página do Archive of The Now, segmento de poesia comandado por Andrea Brady e parte da Queen Mary University of London. Agora só falta organizar a exposição dos textos na universidade, que está em fase de finalização! 

Para conhecer este trabalho que desenvolvi em Londres, basta clicar no link abaixo:

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Extra! Versão em inglês do conto "Quarto 106" passa a integrar o projeto Contemporary Brazilian Short Stories

Versão em inglês do meu conto 'Quarto 106' inaugurando os trabalhos de 2015 do Contemporary Brazilian Short Stories - projeto incrível de divulgação de escritores brasileiros, conduzido por Rafa Lombardino. Segue o link para  texto:


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

o beco é o cu do bairro


Era só um beco. Um beco aos berros. De teto, de frente, de costas e de reto, isento. 

Irmão de corredores, nos arredores ele é sempre mal visto. Redentor de lixos, gatos. É sempre noite o dia. Tem sempre um cartaz rasgado, virada a lata, uma e meia poça, um vibrador gasto. O beco é um tanto quanto clichê. E se nele há um bêbado, já o chamam de Bukowski. O beco é um espaço de equívocos. Embora fique lindo em fotos, melhor ainda se forem em PB. O beco, se fosse pessoa, adoraria chamar atenção. Dessas que ficam caídas pelos cantos, despachadas em sofás bege. Toda casa já teve, tem ou terá um sofá bege. Do qual sentiu, sente ou sentirá vergonha. E sobre o qual joga uma manta indiana. Os sofás bege nasceram pra brilhar, assim como os becos e as pessoas caídas nos cantos. Em cada beco mora um Michael Jackson ainda não desabrochado. Sob cada manta indiana habita um sofá bege de envergonhar famílias. Todo mundo passa por ele, mas finge que não o vê. Por ele, tem sempre um medinho e uma certa atração. 
O beco é o cu do bairro.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

do céu, versão menor

Chã. Pisoteada. Eram tantos pés sobre sua cabeça tronco e membros que não sabia mais onde terminava ou descambava. Seu corpo, doce lar de escarros, pontas de cigarro, merda emplastelada, mijo em litros. Mas era a única a ter do céu visão total e indivisível. O céu nunca se repetia. Doce lar de tocos de estrelas, asas e coisas passageiras, eram constantes sobre ele as nuvens; sobre ela, as solas. Intercaladas em um movimento contínuo de revelar / esconder as partes íntimas do firmamento. Dele, Chã era a versão menor, a pobre da família, espelho de água suja refletida em cristal austríaco. Ao vê-lo de maneira privilegiada, contentava-se em ter tantos pés sobre suas carnes. Disso, até se esquecia, com um sentimento de superioridade doído, causado por esse paralelismo espacial do qual era ao mesmo tempo vítima e imperatriz. 


Uma crise a abatia, devido à dureza de viver tamanha contradição. Escorrida, plana, asfáltica. Naquele dia, 11 de novembro, o sol arrastado do céu se exibia mais do que de costume. Gerava incômodos a ponto de criar rebeliões entre as nuvens, que rapidamente se juntaram em um motim. Chã estava habituada a assistir às revoluções tão comuns nesse terreno aéreo de egos e disputas por visibilidade e espaço. O contraponto para o estrelismo do astro rei foi condensado em ajuntamentos nebulosos munidos de tambores soturnos, trombetas ensurdecedoras, maquinetas de gerar raios mortíferos. A noite avançou sobre o dia em um excesso de massas acaloradas. Correria, estrondos, gritos guturais, debandadas de pássaros ocultaram o sol. As estruturas do céu foram abaladas, fissuras foram criadas, houve rebuliço, movimentação, águas desabaram, ventos arremeteram. 

Pra ela sempre sobrava. Lascas de céu tombariam cairiam sobre sua cabeça, tronco e membros. Chã estava preparada para receber a parte que lhe cabia, essa era a única maneira de ambos passarem do contato exclusivamente visual para o físico. Céu desabou sobre Chã. Ao gozar, ambos estremeceram.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

diário (parcial) de uma terça feira de cinza líquida

Glândulas de sono gotejavam os meus poros, pluridivididas e individuais. Canônicas e maciças. Monocromáticas, noviças com seus chapéus de origami feitos por mãos do Brasil. 

Fui na graça alcançada. Jantei à mesa. Retornei aos cacos. Dois, três, quatro dedos de água em cada copo para criar a melodia orquestral inaudível. Viralizada, caso fosse magnética. Melodia percutida com os nós dos dedos e as costas da colher. 

Dei aos costas ao dia. Pinguei, deitada. Só era a chuva e um ônibus da zona norte queimado. Amanhã, avião cairá na Paulista, uma catástrofe que o profeta sem barba longa registrou em cartório. 

Fiquei cansada de ser chamada para coisas chatas. Gente que faz perguntas demais é porque é oca por fora. Vampirinho que não saiu do armário. E dá risadinha com os dentes podrinhos. Não sabe fazer um bife, um feijão, uma oração pra sair da esquisitice. Daquela esquistossomose conceitual de quem não pisa em rio, seja ele de água dura, mole ou depredada. Tanto bate até que. Gente de vida morta. Longe de mim.